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Diocese de Caxias do Sul: Sinais de Deus em sua história
por Pe. Vital Corbellini

Uma análise teológica-histórica

 Introdução

      Falar de teologia na história é a percepção humana dos sinais de Deus na sua mesma história; é ver como Deus agiu através de suas estruturas, pessoas, acontecimentos. Deus se serve de instrumentos ainda que sejam limitados para falar às pessoas e ao mundo de hoje. Uma teologia é percebida neste tempo não sendo desligada da história. O teólogo faz ou deveria fazer teologia a partir da realidade.

      A Diocese de Caxias do Sul possui 73 anos de existência, de vida, de amor a Deus e ao próximo. Ela realizou uma caminhada na história, acompanhada por sinais que expressam a sua bondade, a sua misericórdia, onde se percebeu a atuação dele por muitas coisas maravilhosas acontecidas. Essa aponta não só cruzes, dificuldades, mas sobretudo alegrias, realizações. Não se pode esquecer também as falhas cometidas, os pecados dos quais pedimos perdão ao Senhor porque a Igreja que fazemos parte é santa e pecadora. No entanto, Deus fez coisas bonitas em seus filhos e filhas, por meio de seus instrumentos, leigos, leigas, presbíteros e bispos. Ele se fez presente nos momentos de unidade de paz e de fraternidade na Diocese de Caxias do Sul.

      A análise dos fatos coloca a realidade das pessoas nos seres humanos na percepção de sinais de Deus na história. A seguir, uma visão geral é feita constituindo-se numa teologia da história desde a constituição da Diocese de Caxias, os seus bispos que a governaram, as suas cartas pastorais, os jubileus, os planos de ação pastoral e evangelizadora, a caminhada do clero, dos leigos e outros dados marcantes como os desafios pastorais e evangelizadores atuais. 

      1. A constituição da nova Diocese e os bispos em suas cartas pastorais.

      1.1 – Dom José Barea

     Caxias do Sul foi constituída nova diocese em 08/09/1934 pela Bula Quae Spirituali Christi Fidelium, de Papa Pio XI, sendo desmembrada da Arquidiocese de Porto Alegre. A 23 de outubro de 1935, noticiou-se que o primeiro bispo de Caxias seria Dom José Barea; houve na época uma explosão de alegria; no dia 11 de fevereiro de 1936 ele tomou posse, tendo o Pe. João Meneguzzi liderado a Comissão Pró Bispado de Caxias. Com a criação da Diocese e tomada de posse do Sr. Bispo, a Igreja Matriz passou a denominar-se catedral, por ser a Igreja-Mãe da Diocese e sede do Bispado2.

     Dom José Barea começou a governar a Diocese procurando estar bem próximo do povo e do clero. Para isso fez no dia 17 de março de 1936, um congresso de todos os vigários da Diocese no qual entre outros assuntos foram escalados padres para fazer uma coleta em todas as famílias para arrecadar fundos para a compra de um terreno para a construção do Seminário Diocesano e foi fundada a Pia Obra das Vocações Sacerdotais, sendo a mesma obra introduzida em todas as famílias da Diocese3. Um seminário era preciso em vista de ter sacerdotes diocesanos, e também o Concílio de Trento insistia na necessidade de construção do seminário por causa da nova diocese nascente4. O Seminário teve a sua importância na vida religiosa do Estado do RGS, sendo um instrumento de instrução geral. Basta lembrar que muitos daqueles que ocuparam posições sociais de relevo, receberam no Seminário a sua primeira educação. Dom José, percebia que a família italiana contribuiu bastante para que o Seminário florescesse com numerosas vocações sacerdotais de seus filhos5.

     No dia 23 de maio de 1937 foi benta, por Dom José Barea com a presença de outros bispos, padres e grande multidão de povo, a pedra fundamental do Seminário Nossa Senhora Aparecida. No dia 19 de março de 1939, foi solenemente inaugurado o Seminário Diocesano Nossa Senhora Aparecida. A imagem saiu da Catedral para onde fora conduzida uma semana antes. Ela rumou em direção ao Seminário, acompanhada por um grande cortejo de automóveis: estavam presentes Dom Antônio Reis, Bispo de Santa Maria, Dom Cândido Júlio Bampi, Bispo prelado de Vacaria, 32 seminaristas do Seminário Maior, 90 do Menor e 52 sacerdotes. A festa envolveu representações das paróquias e capelas da diocese. Desta forma Dom José se preocupou muito com a construção de um seminário que formassem sacerdotes diocesanos.

     Os sinais de Deus na história da Diocese de Caxias são percebidos por coisas que pareceriam insignificantes, mas de fundamental importância como aquelas no dia 08/08/1948 quando houve a benção na Catedral da primeira capelínha destinada à visita domiciliar. O primeiro grupo de 30 famílias foi constituído de zeladoras do Apostolado da Oração. A fundamentação da capelínha era a visita de Maria Santíssima à sua prima Isabel, de modo que Maria visitaria as famílias, propagando nas mesmas uma benção de Deus. A idéia desta devoção foi trazida de Curitiba por Da. Clélia Spinato Manfro do qual Pe. Ernesto Brandalise aderiu com entusiasmo e teve a aprovação verbal de Dom José Barea, Bispo diocesano. Pouco a pouco a devoção foi se espalhando em todas as paróquias da Diocese. A finalidade era a propagação da devoção a Maria, unir as famílias e colaborar com as vocações pela oração e ajuda material6 como está ocorrendo até o presente momento.

     Dom José, por 17 anos conduziu a Diocese, erigindo paróquias, fundando escolas, obras assistências. Como foi dito acima, empenhou-se pela construção do Seminário Diocesano Nossa Senhora Aparecida sendo esse a pupila de seus olhos7. Fez visitas pastorais nas paróquias. Dava muita atenção a celebração das festas, sobretudo a atenção dada àquela de Nossa Senhora de Caravággio. Ele coordenou o primeiro Congresso eucarístico diocesano, realizado de 06 a 09 de maio de 1948 em Caxias do Sul. Esse congresso visava preparar o Congresso Eucarístico Nacional de Porto Alegre. Um altar monumento desse Congresso foi erguido na Rua Sinimbu com a Dr. Monataury, na praça Dante Alighieri. Ele morreu no dia 19/11/1951. Foi velado na catedral8. Na época, o Correio Rio-Grandense dizia: “Tombou uma coluna do santuário, finou-se um príncipe da Igreja, desapareceu um sucessor dos apóstolos. Os fiéis e os sacerdotes da Diocese de Caxias do Sul estão em luto. Perderam o pai espiritual e pastor das almas. Luto geral, vácuo profundo, lágrimas sentidas e silenciosas9.

     Quanto ao pensamento pastoral, ele emitiu ao clero e ao povo de Deus duas cartas pastorais no exercício de seu governo pastoral na diocese de Caxias do Sul. A primeira foi em 1936 no inicio de sua nomeação com o titulo: “saudando a sua Diocese”. Ele dirigia-se ao clero secular, aos fiéis da Diocese, dando a sua paz, benção em Nosso Senhor Jesus Cristo. Ele trabalhava na freguesia N. Sra. do Rosário em Porto Alegre quando recebeu a nomeação de Bispo diocesano de Caxias do Sul10. Ele estava preocupado no governo dessa diocese com muitas obras, a atenção que deveria dar a Ação Católica, a catequese, os colégios e escolas públicas, a construção do Seminário Diocesano, obra em acordo com a Sagrada Congregação dos Seminários e Universidades. Ele tinha presente que essa região era povoada por italianos em sua grande maioria, do qual ele também era descendente, portanto pessoas bastante ligadas aos sacramentos e a vida católica. Ele estava preocupado com as vocações sacerdotais. Ele esperava que essas germinassem no seio familiar, comunitário e no Seminário pudessem se desenvolver11. Ele tinha presente a importância dos sacerdotes, como continuadores da Obra de Jesus Cristo que se dignou em assumir a nossa natureza humana em nossa pobre humanidade12. O mais admirável poder do sacerdote é de tornar presente o corpo de Cristo sobre os altares e oferecê-los as almas como alimento espiritual. O sacerdote participa da Nova Aliança do qual Cristo é o Sumo Sacerdote por excelência. O sacerdote é o homem das almas. Ele tem uma referência de São Jerônimo: Os sacerdotes são os salvadores do mundo13. Ele é o homem do povo cristão, onde sacia a fome das almas, e é o amigo das famílias. Ele necessita estar preparado para a sua nobre missão confiada por Nosso Senhor no ascender as almas até Deus.

     Ele se dirigia aos sacerdotes e a Obra das Vocações para o empreendimento do novo Seminário Diocesano e para que tivesse muitas vocações. Saudava os Círculos operários, as congregações marianas, as Uniões de Moços católicos, os centros da Juventude os quais cooperam com os sacerdotes, vigários e curas de almas na dilatação do Reino de Cristo e na preservação do povo contra a infiltração de doutrinas deletérias14.

     A segunda carta pastoral de Dom José Barea versava sobre o Comunismo e o dever dos católicos. O momento atual se pregava muito que o comunismo era o único sistema que poderia resolver o problema econômico e social que atingia em cheio as classes trabalhadoras. Prometia-se a felicidade terrena. Dom José seguia em muito os sumos pontífices, sobretudo Pio XI que condenava o marxismo: O comunismo é intrinsecamente mau, e não se pode colaborar com ele, em nenhum terreno os que desejam salvar a civilização cristã15. Em primeiro lugar ele dizia que o comunismo não conhece valor algum espiritual e moral, mas ele professa o materialismo absoluto. Ora a Igreja foi e será sempre defensora desses valores: o homem foi criado a imagem e semelhança de Deus e tem uma alma imortal destinado a viver eternamente no seio de Deus16. Para o comunismo, o evangelho é um amontoado de doutrinas imorais e a religião é o ópio do povo, o tóxico das massas. Depois ele não promete liberdade religiosa, nem a liberdade de consciência. Ele combate a religião, a moral cristã de que a religião é a base. “A família seria destruída porque inventada pela igreja”, bradava a Federação Feminina Comunista17. O comunismo promete muito as classes trabalhadoras, pobres. Mas a Igreja nunca deixará de interessar-se pelos infelizes. Ela mantém asilos, hospitais, obras de assistência. Onde fica a liberdade, onde fica a democracia? Quem poderá levantar-se contra o braço onipotente quando ele emprega os trabalhadores para o seu bem estar? Entre uma civilização ateísta e coletivista, de um lado e uma civilização cristã e individualista de outro, o bispo preferia esta e com ele os bons brasileiros18. “Não é possível entrelaçar o estandarte de Cristo com a bandeira vermelha da foice e martelo: ninguém pode abraçar o credo comunista sem trair a sua Igreja e renegar a sua fé”19. É claro que estas idéias influenciaram a comunidade e o clero da diocese. Tanto é verdade este aspecto que em setembro de 1945 houve em Caxias do Sul uma manifestação contra o comunismo no qual Dom José Barea apareceu no comício contra o doutrina comunista juntamente com alguns sacerdotes e leigos católicos20.

      1.2 – Dom Benedito Zorzi

      Os sinais de Deus continuam manifestar-se na história também na coordenação da Diocese pelo sucessor de Dom José Barea, Dom Benedito Zorzi que foi o segundo bispo de Caxias do Sul, ao assumir a Diocese no dia 06/12/1952. Ele vinha de Ilhéus, Bahia. Ele também criou diversas paróquias como aquelas de Santa Catarina e de São José, no dia 25/031954. De 05 a 13 de setembro houve comemorações aos 25 anos da criação da Diocese com a presença da imagem de N. Sra. de Caravággio e abertura do primeiro sínodo diocesano. Houve sessões de estudos para religiosos, educadores, enfermeiras, vocações, catequistas, professores, LICF, JAC, JEC, JICF, JOC, assistentes sociais, apostolado da oração, congregações marianas, filhas de Maria, intelectuais, imprensa, rádio e circulo operário. Organizou-se a procissão de retorno da Imagem ao Santuário na qual tinha sido declarada padroeira principal da diocese21.

      Esse bispo fez muito pelo ensino superior na região. Nos dias três e quatro de março de 1959, inaugurou a Faculdade de Ciências Econômicas da Diocese, estabelecimento superior de toda a região nordeste do Estado, tendo a presença de um grupo de idealistas, sob a presidência do bispo diocesano, Dom Benedito Zorzi. A Faculdade funcionou de uma forma provisória na Catholica Domus, adaptando-se às diversas salas até a criação de uma nova universidade. No dia 05 de maio de 1960, foi inaugurada a Faculdade de Filosofia, sob a responsabilidade da Mitra Diocesana na Catholica Domus e na Escola Normal São José22. Dom Benedito ao inaugurar a Faculdade de Ciências Econômicas em seu discurso sonhava com a Universidade da Serra. Pouco a pouco fez com que aflorasse a Universidade de Caxias do Sul, mantida pela Associação Universidade de Caxias do Sul. Tudo isso foi realidade no dia 15 de fevereiro de 1967, quando o presidente da República, Umberto Castelo Branco e Raymundo de Brito assinaram o decreto n° 60.200 que autorizava a constituição da universidade de Caxias do Sul. No dia 15 de fevereiro, com a presença do governador do Estado o Cel. Walter Peracchi de Barcelos, Prefeito Municipal o sr. Hermes João Webber e Presidente da Associação universidade de Caxias do Sul, o sr. Bispo Diocesano, Dom Benedito Zorzi, foi solenemente instalada com muita alegria do povo a “Universidade de Caxias do Sul” e empossado o seu primeiro reitor, o sr. Virvi Ramos. Estavam presentes o sr. Núncio Apostólico, Dom Sebastião Baggio e inúmeras autoridades e povo23. Nesse sentido, a Diocese contribuiu bastante para a formação de um estabelecimento do ensino superior à região.

      Em 26 de julho de 1964, esteve em Caxias do Sul, Dom Carlo Colombo, bispo auxiliar de Milão, que era o teólogo particular do Papa Paulo VI. Ficou impressionado pela participação nas celebrações eucarísticas. Quando Dom Benedito esteve em Roma por ocasião do Concilio Vaticano II, ao passar junto a um grupo de bispos, cada um se identificava ao papa e o lugar de procedência: “Benedito Zorzi, Caxias do Sul”, disse o bispo. O Papa Paulo VI parou e disse: “Dom Colombo me disse que em Caxias o povo participa muito bem da missa”24.

     Dom Benedito elaborou diversas cartas pastorais convocando a todos à unidade eclesial, à importância do Concilio Vaticano II, à dimensão missionária, entre outras25. Na sua primeira carta pastoral(15/08/1954), o bispo tinha presente a peregrinação mariana na Diocese. Ele fez um visita pastoral a todas as paróquias e às comunidades religiosas nelas existentes onde constatou uma intensa vida católica. Após ter feita a visita Ad Limina Apostolorum, em Roma ele relata na carta pastoral a sua visita aos santuários marianos europeus, como aquele de Nossa Senhora de la Salette, de Lourdes, na França, Loreto, Pompéia, Monte Bérico, Caravággio na Itália e também esteve na Alemanha e Suíça. Nessa carta, o bispo diocesano estabelecia o ano mariano a fim de estimular o progresso na vida espiritual de nossa diocese, apontasse os erros do mundo, como o comunismo, considerado por ele a súmula de todos as heresias; solicitava a instruçao religiosa nas famílias; alertava ao indiferentísmo religioso, raiz de muitos males. Dessa forma o bispo solicitava que a imagem de Nossa Senhora de Caravággio peregrinasse por todas as paróquias da Diocese durante o ano mariano de 195426. As paróquias e o povo acolheram muito bem a presença da imagem da padroeira da Diocese.

      Em 1955, no mês de julho, ocorreu o XXXVI Congresso Eucarístico Internacional no Rio de Janeiro. D. Benedito emitiu uma outra carta pastoral dando importância ao evento eclesial e falando da promessa da instituição da divina eucaristia, tendo como base o capitulo VI de João e os relatos dos evangelhos sinópticos(Mt 26, 26-28; Lc 22,19). Ele afirmava a presença de Jesus na eucaristia, vivo, glorioso. Logo em seguida, ele fala sobre a história dos Congressos eucarísticos iniciados em Lille, França em 1881 e assim outros países fizeram o Congresso Eucarístico Internacional. O Congresso eucarístico é um ato do culto público a Nosso Senhor sacramentado. Sua finalidade principal é: a adoração a Jesus Cristo, presente na Hóstia consagrada; reconhecimento público desta verdade por parte dos povos e nações, quando o congresso tem o caráter Internacional. Na ocasião, Dom Benedito em nome da Diocese oferecia ao Congresso Eucarístico Internacional a matéria do Santo Sacrifício: 2500 litros de vinho, 500 quilos de flor de farinha de trigo, matéria suficiente para a celebração de cinqüenta mil santas missas e para um milhão de comunhões. Um caminhão expresso partiu na frente da Catedral no dia 22 de maio de 1955, após a benção do bispo. O cardeal D. Jaime Câmara agradeceu ao bispo diocesano, suplicando a benção para toda a diocese27.

      A respeito do Concilio Vaticano II do qual Dom Benedito participou desse evento eclesial, foram escritos quatro cartas por ele. A primeira realçava o valor do Concilio ecumênico. A segunda tinha presente o Concilio ecumênico e a renovação dos costumes. A terceira: o Concílio e a Diocese e a quarta falava de orientações de renovação pós-conciliar. Nessa última ele realçava a unidade visível, a evangelização e a catequese, inserção cristã no mundo.

      Em 19/04/1970, Dom Benedito alertava em uma carta pastoral para a introdução da Diocese a respeito do “assunto missionário”. Ele reforçava o documento conciliar (AG 35): “Toda a Igreja é missionária e a obra da evangelização, o dever fundamental do povo de Deus. Eis porque o santo sínodo convida a todos à renovação interior para, fazendo-se vivamente conscientes da própria responsabilidade na difusão do evangelho, tomarem o devido lugar na obra missionária entre os povos”. Os apelos à diocese eram tantos provenientes das diversas dioceses do Brasil, que Dom Benedito escreveu uma carta pastoral em 1970. Na realidade o movimento missionário na diocese iniciara bem antes, em janeiro de 1953 quando se atendeu ao seminário de Ilhéus e à Diocese de Dourados, MS, movimento que passou a denominar-se Pro Deo Currimus28. Já no primeiro sínodo diocesano de Caxias do Sul em seus números de 20-24 se fala destas coisas: Os sacerdotes diocesanos estejam dispostos a auxiliar de boa vontade dioceses com escassez de clero; eles irão com espírito apostólico, sem vistas a recompensas terrenas; é certo que Nosso Senhor não se deixa vencer em generosidade, mas saberá recompensar com mais saúde, com mais fervor, com maior santidade e mais zelo apostólico não só aqueles que partem mas também aqueles que ficam, sobre cujos ombros recai maior peso; formem-se seminaristas e novos sacerdotes neste espírito de apostolado, mostrando-se dispostos a fazer ouvir sua voz até os confins da terra(cf. Sl 18,5; Rm 10,18)29. O envio de sacerdotes missionários por parte da diocese a outros lugares marcou vivamente a Igreja no Brasil.

     Os sinais de Deus podem ser perceptíveis na sua ação pastoral. Em 1980 Dom Benedito Zorzi, bispo diocesano e Dom Paulo Moretto, Bispo Coadjutor emitiam um polígrafo intitulado: “Orientações Pastorais” para reforçar a unidade nas múltiplas atividades pastorais, liberdade dentro do bom senso naquilo que dependia do arbítrio de cada um e em tudo houvesse a caridade dentro do verdadeiro diálogo. Quanto à celebração eucarística, recomendava-se a celebração da missa diária para o sacerdote. Nas comunidades onde não havia a celebração eucarística deve haver a celebração da palavra e a distribuição da eucaristia. Tenha em cada comunidade uma equipe de liturgia que prepare os comentários, os cantos, as leituras; haja momentos de silêncio sobretudo após a comunhão; o Pai Nosso seja rezado dentro do conteúdo como ele é; a distribuição da comunhão seja na mãos. Em todas as paróquias haja a preparação para os sacramentos, batismo, crisma, eucaristia penitência com encontros de preparação e palestras. É preciso ter a sensibilidade pastoral para não menosprezar as normas, os princípios para assim encontrar soluções satisfatórias para todos. O pastor não seja rígido demais que afaste as pessoas, nem facilite que desvie os fiéis de sua comunidade com prejuízo de uma pastoral em conjunto. Quanto aos sacramentais os bispos insistiam no uso correto das normas, evitando-se os desvios, superstição e misticismo. Válida é a visita e a benção nas casas feitas pelo sacerdote, um sacramental muito apreciado por nossos cristãos.

      Quanto a preparação ao santuário de Caravággio, recomendava-se uma preparação espiritual, o significado de uma romaria; essa não pode ser vista como um passeio folclórico mas é um ato de religião que deve levar à uma vida melhor. Foram colocados outras coisas, os registros paroquiais, a coordenação de pastoral, a catequese, o movimento missionário bem como questões práticas aos sacramentos30.

      Sendo bispo emérito, Dom Benedito emitiu uma outra carta pastoral em 30/11/1983, ano de seu jubileu de ouro sacerdotal31, onde ele relata a sua atividade. Em primeiro lugar tem presente a pastoral da colônia. Ele afirmava que o século XIX, periodo de colonização no RGS, foi feita inicialmente pelos alemães e depois pelos italianos e de menor número, poloneses, franceses, suecos e suíços. Em seus lotes rurais pouco a pouco esses colonos começaram a se encontrar para rezar o terço e quando era possível, a eucaristia. Antes mesmo de haver paróquias se formaram as comunidades humanas e eclesiais que tinham o nome de capelas. Ali havia a oração em comum, a catequese, a administração dos sacramentos sendo um ponto de encontro dos moradores. Erigia-se um cemitério para sepultar os mortos. Mais tarde apareceram as escolas, propriedade geralmente da capela. A sociedade da capela tinha sua diretoria (fabriqueiros) e seus associados, com seus direitos e obrigações. As festas dos padroeiros eram celebradas com solenidade externa e com os jogos tradicionais da pescaria, loto ou tômbola. Todos procuravam se ajudar e participar. Dom Carlo Colombo, bispo auxiliar de Milão ficara impressionado pela participação às santas missas, o que Paulo VI ficou contente ao saudar Dom Benedito no Concílio Ecumênico: “Mons. Colombo mi ha detto che a Caxias si ascota molto la messa”: “Mons. Colombo disse-me que em Caxias se assiste muito a missa”. Dom Benedito reconhece que aquele tempo havia unidade e às vezes uniformidade; hoje pela diversidade é preciso uma maior atenção às pessoas e à evangelização.

      Na segunda parte da carta pastoral, ele fala de sua ação pastoral na campanha. Em 1933 ele foi nomeado pároco em São José da estação Engenheiro Ivo Ribeiro, antiga Piratini, no passo da Maria Rodrigues, no município de Arroio Grande. Era região dos campos naturais abertos, em que os povoadores do século XVIII eram em grande maioria açorianos, formando estancias ou fazendas. Ali a preocupação era o batismo, deveria reintroduzir o casamento religioso, atender os doentes, encomendações eram raras, atendimento dos sacramentos. Como padre passou 08 anos no Seminário São Francisco de Paula, em Pelotas. Ele foi nomeado bispo de Ilhéus, na Bahia, por Pio XII, a 3 de agosto de 1946. Ele tomou posse da diocese a 12 de janeiro de 1947, sendo o seu quarto bispo. Na terceira parte ele coloca a pastoral na Bahia que era de sustentação e de educação para a vida cristã. Ele considerava que a tradição deve ser reavivada e vivida. Ele percebia que as distancias eram enormes, os padres poucos; por isso as vezes os vigários para atender às capelas ficavam fora um mês de suas paróquias. Desta forma ele via a necessidade dos ministros extraordinários serem mais preparados porque muitas vezes tinham que fazer de padres em tudo que é permitido. Nas capelas deveria ter o sacrário para o santíssimo sacramento onde esses ministros extraordinários cuidavam do mesmo e faziam com muito zelo. Na quarta parte de sua carta pastoral, ele tem presente a pastoral após o Concílio Vaticano II. Para atender aos sinais dos tempos, de mudanças rápidas e profundas eram necessárias a renovação da vida cristã e da ação pastoral. O Vat. II procurou dar essa nova visão das coisas. Estando na Diocese, após o concílio, toda a organização pastoral foi revista e direcionada para a orientação conciliar, certa e válida: a Igreja deve ser luz dos povos no mundo de hoje. Concretamente para o cristão, o Concílio significou o convite para a integração da religião-vida, isto é a fé testemunhada em todo o agir cristão, no amor. Toda a ação pastoral visa a prática do evangelho e construir o Reino de Deus que é a vida de paz, de justiça e de fraternidade. Nessa carta ele fez uma memória de suas cartas pastorais anteriores, sobretudo da atividade missionária Ad gentes, mesmo com sacrifício do seu povo. A Diocese abriu-se para ajuda a outras igrejas em regiões missionárias e situações de necessidade. Nesse sentido Dom Benedito escreveu em 1970 uma carta pastoral: “Está na hora”. Nos seus 50 anos de sacerdócio, sentia-se feliz em ser padre, em louvar a Deus pela vocação recebida. Como padre e bispo dedicou-se à formação dos futuros sacerdotes. Agradecia a Deus os lugares onde ele passou, paróquias, seminários, dioceses de Ilhéus, Caxias do Sul e o bem dos missionários da Diocese em muitos lugares, principalmente de nosso pais32.

      1.3 - Dom Paulo Moretto

     Os sinais de Deus aconteceram também no sucessor de Dom Benedito, D. Paulo Moretto ao tornar-se o terceiro bispo diocesano da Diocese de Caxias do Sul. Ele foi por três anos bispo de Cruz Alta33. No dia 19 de março de 1976, Dom Paulo Moretto encontrava-se em Caxias do Sul como Bispo Coadjutor. Na catedral diocesana, na celebração eucarística afirmava a disponibilidade de trabalhar pela unidade, clero e povo; é necessário caminhar juntos pelos vínculos do amor, da fé e da missão a cumprir. O bispo é aquele que anima, une e orienta: ele é sinal de unidade na Igreja, na comunidade e na sociedade. O bispo foi posto na Igreja para governar; esta é a sua maneira de servir. Ele manifestava o desejo de sendo bispo coadjutor trabalhar em profunda comunhão com D. Benedito Zorzi, bispo diocesano, exercendo desta forma o ministério episcopal. Ele dava uma palavra de animo e de esperança ao clero, aos religiosos. Dom Paulo manifestou o desejo de participar da caminhada comum de toda a família humana, tendo presente as alegrias e tristezas, preocupações e esperanças, para ser fermento na construção de um mundo conforme os desígnios de Deus. Ele reforçava para o clero e para o povo que o campo de trabalho é este mundo. Ele tinha presente também a índole missionária de nossa diocese: ‘Viver a riqueza peculiar de nossa Igreja particular em unidade e comunhão com as Igrejas particulares será ser bons administradores da multiforme graça de Deus’, garantiu. Confiava também a missão nas mãos de Jesus, Maria Santíssima e manifestava o desejo de se encontrar com todos porque unidos na mesma causa34.

     No dia 26 de maio de 1983, festa de Nossa Senhora de Caravággio, Padroeira da Diocese, no Santuário após a missa Dom Benedito fez a transmissão do comando da Diocese a Dom Paulo, ao entregar-lhe o báculo e a Mitra, como símbolo da passagem episcopal. Os dois bispos foram saudados pelos sacerdotes e pelo povo romeiro presente na festa35.

     Em Dom Paulo pode-se destacar três pontos fundamentais, o pastoral, o formativo e o missionário. Quanto ao pastoral, seguiu a linha evangelizadora da Igreja no Brasil. Os diversos planos de ação pastoral foram organizados em comunhão com as linhas que a CNBB dizia e realçava. Ultimamente a própria CNBB não fala mais de ação pastoral, mas de ação evangelizadora. A pastoral visa a evangelização, o anúncio da boa nova do Reino de Deus. É o que se fez também na Diocese de Caxias do Sul. Diversas assembléias diocesanas foram realizadas para a programação da ação pastoral e evangelizadora do clero e de nosso povo levando em conta a realidade para assim também viver melhor os sinais de Deus na história. Com o novo bispo foi dinamizado o Conselho Diocesano de Pastoral, onde as principais lideranças das regiões e das áreas bem como das pastorais se encontram para analisar, aprofundar o plano diocesano de pastoral. Nesse sentido destacam-se o empenho dos coordenadores de pastoral da diocese desde que foi criada a coordenação de pastoral. O bispo Dom Paulo procurou valorizar a dedicação dos padres que assumiram essa missão na diocese, visando o engrandecimento do Reino de Deus. Ele manteve presença junto com a coordenação de pastoral nas regiões de pastoral ou nas áreas para acompanhar a pastoral, as prioridades da Diocese, o encaminhamento dos projetos em vista da realização do plano evangelizador, a aproximação com os leigos, leigas, religiosos, presbíteros. As visitas pastorais é o outro marco de nosso bispo. Ele passou nas comunidades, conhecendo os problemas, as dificuldades, as esperanças de nosso povo, bem como a fé em Jesus, em Maria, a alegria por viver em comunidade. Ultimamente foram realizados os encontrões, com uma presença marcante de lideranças e do povo onde se realçava o valor da comunidade e a forma de viver como a comunidade primitiva. Permanece o desafio das periferias com a compra de terrenos e construções de igrejas. Os bairros estão explodindo e é fundamental a compra de terrenos para que a comunidade se encontre para a celebração eucarística e da palavra.

     Um segundo dado de Dom Paulo é a dimensão formativa. Ele insiste na formação permanente dos presbíteros e do povo. Diversos cursos de formação para o clero foram realizados na casa dos capuchinhos em Garibaldi, mais tarde no CDFP, Caxias do Sul. Destacam-se também os retiros para o clero, no CDFP e também na casa de formação dos Irmãos Marístas em Veranópolis. Ultimamente está sendo feita a escola de formação: fé, política e trabalho, organizado pela coordenação diocesana de pastoral em colaboração com a Unisinos. Acontecem retiros com catequistas, leigos engajados na comunidade. Dom Paulo enviou também diversos presbíteros e alguns leigos, para estudar dentro do pais ou fora para diversas áreas como cristologia, dogmática, história da Igreja antiga, patrologia, filosofia, direito canônico, psicologia, liturgia, Biblia, antropologia filosófica e teológica, missiologia, bem como outros setores nos quais alguns sacerdotes buscam a aprimoração: a formação permanente. Nessas últimas décadas, como um sinal dos tempos e da presença marcante do Espirito são as escolas de formação teológica para leigos; em diversas paróquias36 surgiram como expressão da vontade de apreender mais a respeito das coisas de Deus, do ser humano e da Igreja. Isso tem levado os leigos a estudarem mais sobre a Biblia, teologia, antropologia, escatologia e também os próprios presbíteros a dedicarem-se mais na leitura e explanação de suas idéias. Um acento para a catequese está bastante presente nesses cursos, bem como o ensino religioso, a preparação para a formação de ministros da eucaristia, ministros da esperança.

     Sendo o terceiro bispo diocesano deu continuidade ao trabalho missionário das Igrejas-Irmãs, auxiliando Cuiabá, Bahia e ultimamente em Jarú, na Rondônia. Diversos sacerdotes foram enviados para as missões, até nas POM e na Infância Missionária (Brasília), com o objetivo de ajudar dioceses mais carentes, fortalecendo o espirito missionário de nossa diocese e da Igreja no Brasil. 

     2. Jubileus de Prata e de Ouro da Diocese.

     Os jubileus de prata e de ouro foram vivamente marcados na Diocese por acontecimentos que visavam a sua unidade, a justificativa de ser uma porção de povo em uma Igreja particular tendo o bispo como o seu coordenador, o clero que o ajuda e o povo de Deus que vive a sua fé no mundo. Nestes momentos percebem-se também os sinais de Deus nas pessoas, estruturas na diocese como igreja que possibilitaram tantos favores, graças para todo o povo fiel.

     2.1 O Jubileu de Prata.

     Fator importante foi o Sínodo Diocesano de Caxias do Sul. Ele foi convocado em 06/07/1959 por D. Benedito Zorzi, por ocasião do jubileu de Prata da Fundação da Diocese, sendo celebrado nos dias 07 e 08 de setembro de 1959. No dia anterior e posterior aconteceram as missas na catedral diocesana. Estiveram presentes no Sínodo convocatório, o Bispo Auxiliar, os párocos, os reitores dos seminários diocesanos e religiosos, vigários gerais, vigários forâneos e também alguns representantes dos religiosos37.

      Na abertura, D. Benedito dizia que o sínodo se justificava pelo jubileu de Prata da criação da diocese. Para esse acontecimento, mandou vir de Farroupilha, a imagem de Nossa Senhora de Caravággio. Para a realização do primeiro sínodo diocesano, o bispo se atinha ao cânon 356 do CDC que prevê em cada diocese, a cada 10 anos se faça um sínodo que procure tratar as coisas referentes à Diocese, ao clero e ao povo. O bispo achava conveniente aquele encontro, um sínodo, para tratar das coisas necessárias e úteis em vista do bem espiritual dos fiéis confiados ao cuidado pastoral do clero. Ele considerou fundamental que o dia 08 de setembro houvesse a comemoração do Jubileu de Prata com o primeiro sínodo.

      Uma primeira pergunta se levantava tanto no clero como no povo fiel: O que é um Sínodo?38 D. Benedito tinha presente através desse(o Sínodo) uma assembléia dos párocos e de outros sacerdotes para tratar de coisas condizentes às necessidades, utilidades do clero e dos fiéis no plano espiritual. Para o sínodo não foram convocados todos os sacerdotes, mas aqueles que tinham uma função mais explícita no clero e na Diocese para também não privar os fiéis da assistência religiosa. Como todo acontecimento não pode ser improvisado, o sínodo foi preparado pela oração e pelo estudo. Oração: todos, clero e povo suplicavam a benção de Deus sobre a Diocese. Um Tríduo preparatório foi preparado nas paróquias em vista de tal acontecimento. Na cidade de Caxias do Sul houve as missões anunciadas por vinte e cinco sacerdotes da Ordem Seráfica de São Francisco de Assis. Estudo: os padres estudaram por diversos meses aspectos referentes à Diocese. Eles deveriam apresentar sugestões nas quais o Bispo Auxiliar D. Frei Cândido ficou encarregado de recolher o material e presidir os trabalhos no Sínodo39. Ainda que o sínodo tivesse um voto consultivo na qual só o bispo pode fazer uma lei, no entanto ele deveria auscultar, ouvir as necessidades do clero e dos fiéis em vista do bem das almas, do crescimento da santa Igreja, a glória de Deus animados pelo ambiente da caridade cristã.

      O pano de fundo ao sínodo, era a busca de uma vida cristã por um mundo melhor, no indivíduo, família e sociedade. O “mundo melhor”40 já era uma palavra bastante falada na época, em vista de um ideal a ser perseguido contra a ganância, lucros fáceis, imoralidades, a dificuldade de distinguir o bem e o mal nas coisas públicas, o materialismo e o perigo que estava aparecendo do comunismo ateu. D. Benedito dizia que a vida cristã só pode ser intensa no indivíduo, família e sociedade.

      Houve quatro sessões; duas pela parte da manhã e duas pela parte da tarde, entre os dias 07 e 08 de setembro de 1959. Essas (as sessões) foram realizadas na sala onde funcionava a Faculdade de Ciências Econômicas no prédio da Catholica Domus, tendo a presidência o Bispo Diocesano, D. Benedito Zorzi. A primeira delas tratou mais dos assuntos da organização eclesial como dos clérigos em geral, do romano pontífice, do bispo diocesano, do bispo auxiliar, da Cúria Diocesana, dos Vigários Gerais, dos Forâneos, dos Vigários Cooperadores, dos religiosos, da Ação Católica e dos sacramentos em geral.

     Já na segunda sessão foram tratados assuntos como das festas, procissões, tempos sagrados e dias festivos, da catequese dos adultos e das crianças, da Palavra de Deus, das missões paroquiais, retiros espirituais, seminários, bens eclesiásticos e coletas.

     Na terceira sessão feita no dia 08/08/1959, aberta às 8:00 hs da manhã tinha estes assuntos: o sugerimento de dispositivos legisladores a respeito de hospitais, médicos, enfermeiros, baseados nas experiências colhidas nos diversos hospitais paroquiais, diocesanos. D. Benedito sugeriu aos sacerdotes, que eles realizassem uma vez na vida, um mês de renovação sacerdotal dando a eles as facilidades para esse fim.

     Na quarta e última sessão foram tratados temas como as vocações, coletas, festas religiosas, casa de hospedagem para o clero, desistências de seminaristas, formação de uma equipe de padres que analisasse os bens da Diocese e da arte sacra, bem como outros assuntos referentes à paróquia e Diocese. Esse primeiro sínodo possibilitou uma unidade na Diocese sobretudo na referência ao clero, povo, bispos para uma caminhada em conjunto não só em normas para serem seguidas, mas também na ação evangelizadora.

     No sínodo houve a leitura de um breve apostólico de João XXIII datada em 30/07/1959 onde se declarava Nossa Senhora de Caravággio, patrona da Diocese de Caxias do Sul. Dom Benedito fizera esse pedido à Sagrada Congregação dos Ritos, o que foi aceito pelo papa. Dizia-se: “Estabelecemos, constituímos e declaramos em perpétuo a beatíssima Virgem Maria, dita ‘Nossa Senhora de Caravággio’ patrona celeste principal junto a Diocese de Caxias do Sul”41.

     2.2 O jubileu de ouro.

     Dom Paulo foi quem celebrou o jubileu de ouro no qual esteve na frente da Diocese junto com o clero e o povo por sua coordenação. Aqui também dá para perceber como no anterior, a presença de Deus agir pelos seus representantes e o povo em geral. Uma leitura teológica coloca o fator da caridade, da unidade da Igreja, a preocupação com a formação do clero e do povo.

     Em 1984 foi comemorado o Jubileu de ouro da Diocese. Para marcar esse evento, aconteceu a visita pastoral do Bispo diocesano junto com a coordenação de pastoral, em todas as paróquias da Diocese onde houve um encontro com os agentes de pastoral e com o povo. A visita proporcionava levar adiante as prioridades assumidas nos planos de pastoral, confirmar e fortalecer as pessoas que trabalhavam na animação, coordenações e frentes das prioridades e setores de pastoral nas paróquias e Comunidades-Igreja e recordar os 50 anos de fundação da Diocese.

      Desde 08 de setembro de 1984 até 02 de fevereiro de 1986, a Diocese celebrou o jubileu de ouro de sua fundação. Dom Paulo conclamava a todos os fiéis e o clero para se identificar com a fisionomia de nossa diocese e darmos resposta de fidelidade a Palavra de Deus sempre eficaz e transformadora. O evangelho deve responder aos novos desafios e se encaixar na vida da pessoas, procurando responder as perguntas e as dúvidas dos homens de hoje42.

     O objetivo geral na ação pastoral era: “Reavivar nossa fidelidade à missão confiada pelo Senhor, de ser Igreja, sinal e instrumento de salvação, à luz da opção preferencial pelos pobres, em vista de uma sociedade justa e fraterna, inicio e esperança do Reino definitivo”. Um amplo programa foi cumprido com muitos frutos de renovação, reavivamento da vida cristã e de realizações. Destacam-se:

     - Celebração de Finados de 1984. Recordam-se todos os que construíram a história da Diocese e da região. Celebração em todos os níveis. Celebração da vida, morte e ressurreição do Senhor;

- A construção do Centro Diocesano de Formação Pastoral(CDFP), em vista da formação de pessoas para as necessidades da Igreja Diocesana e para a sociedade, para apóio às prioridades pastorais e para as necessidades missionárias da Diocese e das Igrejas;

- A Assembléia dos Presbíteros estudou a realidade sócio-econômico-político-cultural e religiosa da Diocese. O estudo analisou a história da diocese, as mudanças sofridas e a identidade eclesial. Foram estabelecidas pistas para a ação pastoral;

- Assembléia Diocesana de Pastoral que tinha como objetivos; rever a caminhada pastoral da Diocese, os objetivos do Jubileu de ouro, das prioridades das assembléias das regiões pastorais de 1983; das Diretrizes Gerais da Ação Pastoral da Igreja no Brasil e do Regional Sul 3 da CNBB. Refletir à luz da Palavra de Deus, descobrir novos apelos, elaborar diretrizes da ação pastoral da Diocese43;

- Celebração da Festa da Padroeira da Diocese, Nossa Senhora de Caravággio de 1985, com preparação em todas as paróquias e comunidades e participação da Romaria de maio de 1985;

- Romaria Diocesana da Juventude;

- Encontro Diocesano de jovens vocacionados.

     No jubileu da Diocese, foram ordenados seis novos sacerdotes a serviço do povo de Deus: Josemar Conte, Jaime Luiz Gusberti, Elio Meneguzzo, Álvaro Luiz Pinzetta, João Roberto Masiero e Cláudio José Pessoli.

     Dentro do ano jubilar, houve a visita da Imagem de Nossa Senhora de Caravággio as paróquias da cidade de Caxias do Sul de 18 a 31 de Janeiro. Houve também a grande celebração eucarística na catedral diocesana em 09 de setembro de 1984. Foram elaborados livrinhos sobre Finados, celebração da gratidão e da esperança, a via sacra no jubileu de ouro, dia primeiro de maio. Naquele ano comemorava-se a 106 romaria de N. Sra. de Caravággio: dias 25 e 26 de maio de 1985. O tema era: “Com Maria exultemos em Deus que sacia os famintos”. No dia 27 de outubro de 1985 aconteceu a assembléia diocesana da Juventude. Para isso houve uma preparação com subsídios para os grupos de jovens. Houve subsídios sobre o Povo de Deus e a reforma Agrária, os direitos humanos, o regimentos das Comunidades-Igreja, a assembléia diocesana de pastoral em 15-17 de Novembro de 1985. Houve a elaboração do subsídio para a novena de Natal, encontros para grupos de família, com o tema: “Habitou entre nós e renovou a face da terra”44.

     Em 1985 aconteceu também a assembléia diocesana de pastoral, na qual programava-se a Ação Pastoral para os próximos três anos: de 1986-1989. O objetivo geral era o mesmo daquele da CNBB: “Evangelização do nosso povo a caminho do terceiro milênio do cristianismo pela participação na Igreja servidora e profética à luz da opção pelos pobres para a libertação integral em vista de uma sociedade justa e fraterna, início e esperança do Reino definitivo”. A evangelização é missão de Jesus, bem como também a missão da Igreja. Ela se faz pelo anúncio do Reino de Deus e denúncia das injustiças, pelo testemunho e a palavra. Isso exige a renovação pessoal e da humanidade. Nesse período houve a reflexão das profundas mudanças nesses 50 anos de existência da Diocese. A Igreja de Jesus que está em Caxias do Sul não pode desconhecer tal realidade como também não pode ficar distante, cabendo-lhe ser sinal e instrumento de salvação e de unidade de todo o gênero humano(LG 1).

     A diocese que inicialmente era de predominância rural, com pequenas cidades e vilas, passa a ser uma diocese urbana e industrial. Os pólos industriais provocaram a imigração do interior para a cidade, tendo como conseqüência o crescimento desordenado das periferias urbanas. Os MCS implantaram o consumísmo, gerando novos padrões de cultura e uma crise de valores tradicionais. O trabalho artesanal, agrícola de subsistência foi substituído pela migração dos povos na cidade por um trabalho industrializado, passando a ser uma peça ligada à máquina. A agricultura sofreu um processo de dependência diante da agro-industrial, adubos, produtos químicos; o trabalho, um dos grandes valores humanos da nossa cultura, é percebido como simples fator de acumulação de riquezas. Outro dado nesse tempo, a miscigenação cultural, não mais com elementos culturais tipicamente italianos; as cidades são formados por diversos povos. A vida religiosa do povo firmava-se sobre o sacramental, o culto, com suporte na família, nas devoções e orações; agora a religião, como conseqüência do capitalismo, é uma questão particular, em que cada um se entende com Deus, sem participação na libertação e transformação do mundo.

     A organização das paróquias e capelas, o atendimento religioso que favoreceram a comunhão fraterna e a transmissão da fé e sustentaram a pastoral, são questionados os seus métodos. Para isso é preciso frisar o valor da dimensão comunitária da vivência da fé. Há uma pastoral de busca que valorize as ciências humanas e antropológicas, com métodos participativos, uma economia a serviço do homem(P 497). A Palavra de Deus, nesse contexto é luz, um resposta adequada para a ação na comunidade eclesial e no mundo.

     Como prioridades diocesanas foram assumidas:

  • Organização das Comunidades-Igreja e seus serviços
  • Apoio às entidades e lutas do povo;
  • Pastoral operária e pastoral rural;
  • Pastoral da juventude;
  • Pastoral das vocações sacerdotais e religiosas;
  • Direitos humanos;
  • Grupos de Família e Grupos de Base45.

     A missa de encerramento do jubileu de ouro da Diocese ocorreu no dia 02.02.1986 no Santuário de Nossa Senhora de Caravággio46 com a participação do clero e do povo. Dessa forma os jubileus foram momentos de ação de graças a Deus pelas maravilhas que ele realiza pelos seus filhos e filhas, na igreja particular, a Diocese de Caxias do Sul. 

     3. Acontecimentos marcantes em ligação com a pastoral e a vida diocesana.

     Alguns acontecimentos merecem destaque na história da Diocese de Caxias do Sul. Eles envolveram a juventude com a Ação Católica, a organização operária, o clero, o santuário diocesano. Nesses eventos uma leitura teológica é possível de ser feita, percebendo a alegria do serviço das pessoas, o amor a Jesus Cristo através da Igreja.

     Atendendo os apelos do Papa e as determinações do episcopado nacional, em Caxias do Sul envidaram-se os esforços para a organização da mesma (Ação Católica) em todos os seus ramos fundamentais. No dia 24 de outubro de 1944, foi ereto o centro Paroquial “Sagrado Coração de Jesus” da Juventude Feminina Católica(JFC); em 30 de setembro de 1945, foi nomeada por Dom José Barea a, primeira diretoria diocesana dos homens da Ação Católica(HAC): em 27 de julho de 1947, foi nomeada a primeira diretoria da Juventude Masculina Católica(JMC); em 1957 a juventude masculina e feminina que abrangia em seus ramos operárias, estudantes e independentes adaptou-se aos novos estatutos em JC, JEC, LICF(Liga Independente Católica Feminina); JUCF47.

     Outro acontecimento marcante foi o testemunho dos padres diocesanos nas missões, mortos em um acidente. Tudo aconteceu no dia 22 de julho de 1980. Os padres João Sachet, Aquilino Franceschet, Irmão Braz Sinigaglia, marista, que estavam a serviço das Paróquias de Nova Andradina e Angélica e mais o Pe. Raul Accorsi, pároco de Santo Antônio de BG que estava visitando os padres, tiveram morte instantânea quando a Brasília em que viajavam foi colhida frontalmente por uma tombadeira, com areia que viajava em meio da poeira. Houve a missa exequial na Catedral concelebrada pelos bispos, mais de 80 sacerdotes e outros bispos e uma grande multidão48.

     João Paulo II proclamou o ano de 1983, o ano extraordinário da redenção, para celebrar os 1950 anos da morte salvadora de Cristo. O Papa fazia esse apelo: “Abri as portas ao Redentor”. Na Diocese a abertura aconteceu na Catedral, no dia 25 de março com a presença do povo cristão, religiosos, presbíteros diocesanos. O espirito de reconciliação esteve presente através de reflexões, procissões e outros movimentos populares e religiosos em toda a Diocese49.

     Santuário Diocesano de Nossa Senhora de Caravággio50. É um outro fato marcante para a Diocese, onde o sinal de Deus se manifestou ao longo da história. A devoção veio por causa da imigração italiana. Tudo aconteceu em 26/05/1879, Linha Palmeiro, pertence à Dona Isabel(Bento Gonçalves). Duas famílias: Antônio Fransceschet e Pasqual Pasa iniciaram a construção de uma capelinha. Ao oratório, outras famílias ajudaram a construir tal igrejinha. Como lhe faltasse o padroeiro pensava-se no início ser chamada de N. Sra. do Loreto. Como não tivesse a imagem foi proposta de Nossa Senhora de Caravággio, velha devoção. A proposta foi aceita, com uma preparação à inauguração. A primeira festa foi no ano de 1879, primeiro ano da Romaria. O quadro original conserva-se até hoje no Santuário. Com o tempo um novo santuário foi construído devido a quantidade de peregrinos e esse foi abençoado em 1963.

     Outros fatores foram se agrupando a um melhor atendimento aos romeiros no santuário pela casa do peregrino. Desde 1986 há o curso do Propedêutico dos seminaristas diocesanos. A capela das confissões tem dois pisos: o térreo serve para alimentação nas grandes festas e o andar superior para o atendimento das penitentes, retiros, encontros do clero diocesano na Quinta-feira santa, velórios para a comunidade do santuário. O que era então apenas uma sede paroquial em 26/05/1968 foi elevada a Santuário Diocesano, dependendo diretamente do bispo diocesano, representado por um reitor. A grande maioria dos peregrinos vai ao santuário para agradecer favores recebidos ou implorar alguma graça. Muitos recebem a graça da Palavra de Deus, dos sacramentos da Penitência e Eucaristia que os conforta na caminhada à uma vida melhor, conformando-a ao evangelho51. Já foram realizadas mais de 100 romarias e em todos os anos os peregrinos acorrem ao Santuário para louvar a Deus pelas maravilhas realizadas através da mãe do Filho de Deus. 

     4. Os sinais de Deus nos planos da ação pastoral e evangelizadora da Diocese

     A Diocese de Caxias em sua ação pastoral caminhou em consonância com as linhas da ação pastoral da CNBB. Nisso percebe-se também sinais de Deus na ação pastoral e evangelizadora dos leigos, lideranças de nossas comunidades, presbíteros e bispos. Em nível de Brasil, em 1964, falava-se da necessidade de constituir uma Coordenação Diocesana de Pastoral em cada diocese. O Plano de Emergência, da CNBB foi criado na vigília do Vat. II. Esse plano propunha duas partes: a primeira, a pastoral que incluía a reforma paroquial, uma renovação do ministério sacerdotal, a renovação dos educandários. A segunda parte do plano de emergência falava do aspecto econômico-social. A Igreja levava em conta o clamor das massas martirizadas pela fome, o pauperismo entre as camadas mais humildes da população, a frouxidão moral e a instabilidade da família, a situação dos operários, dos camponeses, exigindo a todos compreensão e solidariedade. Ele reforçava a pastoral de conjunto ressaltando que a Diocese é uma unidade fundamental da ação pastoral e a paróquia uma célula orgânica que se constitui como comunidade de fé, culto, e caridade52. Na Diocese, neste período, nas regiões pastorais estudaram-se os documentos do Concílio Vat. II. Procurava-se ver a repercussão que teve o Concílio nas comunidades, no clero e na própria sociedade e a necessidade de assumi-lo na realidade em que as pessoas e o clero se encontram.

     De 1966-1970, a CNBB formulou o Plano de Pastoral de conjunto. Esse tinha como objetivo geral: “Levar todos os homens à plena comunhão de vida com o Pai e entre si em Jesus Cristo, no dom do Espirito Santo, pela mediação visível da Igreja”53. Seguindo o Vat. II falava-se das Diretrizes fundamentais da ação pastoral os seguintes temas: a comunidade, Igreja, os diversos membros do povo de Deus, leigos, clero e religiosos, presença da Igreja no mundo. Falava-se nesse plano, a valorização do projeto, programa e plano. O projeto define-se quando alguém, a diocese, a CNBB, uma ordem, se propõe a assumir determinadas atividades previstas, com responsabilidade, prazos, custos; O programa trata de um grupo de projetos reunidos do mesmo critério, constituindo o que se chama de programa. Já o projeto, é o conjunto de dois, três, quatro ou mais programas. Na segunda parte falava das linhas de trabalho. A de n° 1 falava da promoção de uma sempre mais plena unidade visível no seio da Igreja Católica; a de n° 2: promoção da ação missionária; a de n° 3: promoção da ação catequética, o aprofundamento doutrinal e a reflexão teológica; a de n° 4: promoção da ação litúrgica; a de n° 5: promoção da ação ecumênica; a de n° 6: promoção a melhor inserção do povo de Deus, como fermento na construção de um mundo segundo os desígnios de Deus. A terceira parte colocava a aplicação das diretrizes aos planos nacional e regional. A quarta parte falava da aplicação das diretrizes ao plano diocesano, sentido e função do planejamento diocesano, como elaborar um plano diocesano: é preciso ter plano e projetos54.

     Na Diocese sómente em 1968 se elaborou o Primeiro Plano Diocesano de Pastoral de Conjunto. Esse tinha presente 06 programas: a unidade visível que estivesse presente nos sacerdotes, religiosos e leigos, a ação missionária, a ação catequética, a ação litúrgica, a ação ecumênica, a inserção cristã no mundo pela família, a educação, a realidade sócio-econômica e a opinião pública sabendo que na Diocese de Caxias do Sul havia seis emissoras católicas, três delas mantidas pela Mitra. Esse plano colocava estes pontos: o objetivo, as justificativas, as sugestões para a ação pastoral, em nível de Diocese, de região pastoral e de paróquia, a dinamização de organismos de avaliação e acompanhamento: Conselhos Presbiterais, Conselho de Pastoral, Conselho Administrativo e Comissões Diocesanas. Houve a necessidade de um trabalho pastoral em conjunto do clero e do povo em geral55.

     Em 1969 foi elaborado o segundo plano diocesano de pastoral, que seguia na sua estrutura básica o primeiro plano. Os agentes de pastoral e as comunidades também colaboraram na dinâmica evolutiva e metodologia pastoral. O plano pastoral apresentava os seguintes programas: unidade visível, evangelização e catequese, ação litúrgica, ação ecumênica, inserção cristã no mundo56. Nesse sentido destaca-se a Ação Católica, bastante presente nas décadas de 1960-1970; ela contribuiu na caminhada pastoral da Diocese com os seus apelos de encarnação na vida real, organização dos trabalhadores e estudantes, formação de militantes, a importância da comunidade e evangelização dos meios específicos. A Ação Católica era o engajamentos dos leigos e leigas no mundo moderno. O mesmo pode-se dizer na organização dos agricultores para a fundação dos Sindicatos de Trabalhadores Rurais, mesmo nesse periodo, porque a nossa diocese tinha uma estrutura fortemente rural57.

     Em 1970, realizou-se a primeira assembléia diocesana dos presbíteros na Diocese que procurou avaliar a ação pastoral, a organização das bases em vista da comunidade, fazer encaminhamentos de planos regionais e paroquiais, aprovar projetos missionários para o Mato Grosso e Goiás. Nesse mesmo ano(1970) foi criado o COM: Centro de Orientação Missionária com esta finalidade: “Ajudar a Igreja diocesana a transformar-se em Igreja missionária, tanto para dentro como para fora, no espirito de co-responsabilidade comum pelas igrejas e de preparar agentes de pastoral para os projetos missionários da Diocese e de outras Igrejas”. Se em 1972 houve a criação do projeto Igrejas-Irmãs pela CNBB, a Diocese já estava adiantada na ajuda a outras Dioceses em vista do anúncio do Reino de Deus para outras comunidades mais necessitadas que as nossas. Já nos Conselhos Regionais houve o estudo do que é Igreja, hoje? O que é comunidade, o que é ação pastoral, como organizar a ação pastoral. Nos anos sucessivos, foram formados diversos planos de ação pastoral com os objetivos de serem sinais de Deus em meio ao povo de Deus confiado. Em 1971, por ocasião da segunda assembléia diocesana de pastoral, essa assumiu como prioridade o fortalecimento de comunidades vivas de Igreja na base.

     Em 1972 houve a elaboração de um plano de atividades pastorais com o objetivo de tornar a missão da Igreja sinal e instrumento de comunhão e de caminhar numa pastoral de fidelidade à realidade do povo, valorização das pessoas e dos carismas. Os projetos prioritários contemplavam os conselhos regionais e paroquiais de pastoral, a formação de agentes e a conscientização das pessoas.

     Em 1973, o Plano de Ação pastoral tomou como objetivo geral: “Realização das pessoas em comunidade para que nela explicitem sua fé em Jesus Cristo, realizem a comunhão diocesana e assim manifestem as feições próprias da Diocese de Caxias do Sul, como Igreja Particular”. Ficou mais evidente a noção de Igreja como Povo de Deus, a fé como compromisso de engajamento de transformação da realidade; estudo e análise da realidade em uma metodologia que provocasse a participação de todos58.

     Em 1974 a assembléia diocesana de pastoral elaborou planos de atividades para as regiões pastorais e assessorias diocesanas por ocasião do centenário da colonização italiana e aproveitamento da Rádio Míriam na Ação Pastoral e evangelizadora da Diocese. Muitas coisas foram feitas através da Rádio, programas religiosos, as celebrações eucarísticas, divulgação dos planos de pastoral, a palavra do bispo diocesano a todos os diocesanos.

     Em 1975 teve o Projeto Imigração, sendo o seguinte objetivo: “fazer o povo celebrar o centenário da imigração para reavivar as boas tradições, o heroísmo daqueles que foram os construtores dessa região, descobrir o que houve de valor evangélico no trabalho anônimo dos pioneiros, e criar condições para que o povo se organize em comunidades vivas de Igrejas e desencadear uma ação pastoral na base”59.

     Em 1976(18-20/08) aconteceu a assembléia diocesana dos presbíteros tendo como tema básico: “Presbítero, homem de fé, homem de Igreja”. Nessa assembléia houve aprofundamento de muitos assuntos como: inserção do presbítero no mundo, a sua integração na estrutura eclesiástica, a sua realização, a sua ação pastoral e vivência da fé. Algumas resoluções aprovadas nessa assembléia: presbitério; presbíteros na co-responsabilidade: é preciso reforçar a estrutura do conselho dos presbíteros e ouvir as bases; promover a amizade entre os presbíteros, formação e acompanhamento, sua ação pastoral, solidariedade e entre ajuda sacerdotal e administração paroquial60.

     Em 1977 foram contemplados no Plano Diocesano de Atividades pastorais: pastoral rural e operária, formação de agentes de pastoral, pastoral da juventude, vocacional e missionária. A coordenação diocesana dinamizou a criação de círculos bíblicos, novenas de Natal, encontros com as diretorias para estudo do Regimento das Comunidades-Igreja que foi aprovado pelo Conselho Presbiteral em 16 de dezembro de 1977: essa foi a primeira edição. Ocorrerão outros como as de 1996 e 2002, devido ao acento evangelizador na organização das comunidades61.

     Em 1978 o Conselho Diocesano de Pastoral aprovou as Diretrizes da Ação Pastoral 1979 – 1980 que tinha como objetivo geral: “Promover a realização das pessoas em comunidades, onde possam manifestar sua fé em Jesus Cristo Libertador, em vista da comunhão diocesana”. As Diretrizes colocavam a missão de Cristo e da Igreja, como povo de Deus, uma Igreja servidora, uma Igreja com bispos e padres, irmãos mais velhos e agentes, uma Igreja missionária. Na apresentação, Dom Benedito Zorzi, bispo diocesano e Dom Paulo Moretto, bispo coadjutor afirmavam: “O núcleo central das Diretrizes é a educação para o espirito comunitário, como forma de construir a Igreja, através da participação e da co-responsabilidade. A integração entre religião e vida é outra exigência de nossa fidelidade ao evangelho, hoje”62.

     Em 1980 aconteceu a Assembléia Diocesana de Pastoral onde foram assumidas as prioridades: pastoral rural com círculos bíblicos e catequese; pastoral urbana com círculos bíblicos e catequese. Puebla influenciou a ação pastoral nesse periodo no qual a assembléia debateu: evangelização do mundo do trabalho, opção pelos pobres, realidade urbana e rural63.

     Em 1981 a realidade rural e urbana mereceu atendimento pastoral específico de modo que a assembléia diocesana de pastoral realizou de uma forma separada: meio rural e meio urbano.

     Em 1983 houve as assembléias regionais de pastoral, com o objetivo de organizar uma pastoral segundo o projeto de Deus. Nesse ano (26/05), D. Paulo sucedeu D. Benedito, tornando-se o bispo diocesano de então. As oito regiões de pastoral realizaram assembléias, precedidas por assembléias paroquiais em que se analisava a realidade dos trabalhadores. A grande maioria do povo é mais trabalhador urbano que rural. Para isso a Pastoral rural ajudou com um subsidio: Realidade rural e ação da Igreja: O meio urbano centralizou-se no tema: Igreja no mundo do trabalho. As regiões de pastoral escolheram como prioridades: apoiar os grupos de famílias para se chegar a autênticas CEBs, Catequese, Liturgia, PR, PO, Juventude, PV, Organização das mulheres, Formação de agentes e direitos humanos.

     De 1986- 1989, realizaram-se Conselhos Diocesanos e conselhos nas regiões pastorais tendo como objetivo: “Acompanhar a ação pastoral a partir das Diretrizes e prioridades nas comunidades, passos a serem dados para manter a continuidade”64.

     Em 1990(08 e 09 de março) aconteceu a Assembléia Diocesana de Pastoral que assumiu o objetivo da CNBB, na sua 29 Assembléia: “Evangelizar com renovado ardor missionário, testemunhando Jesus Cristo, em comunhão fraterna à luz da evangélica opção preferencial pelos pobres, para formar o povo de Deus e participar da construção de uma sociedade justa e solidária a serviço da vida e da esperança, nas diferentes culturas, a caminho do Reino definitivo”. Novas prioridades foram assumidas na Diocese para os anos de 1990-1993;

  • Organização de comunidades eclesiais participativas, enraizadas e comprometidas na vida do povo;
  • Presença e compromisso eclesial no mundo do trabalho;
  • Formação integral e permanente do cristão e dos agentes de pastoral65.

     De 1994 até 1997 teve mais um plano de Ação Pastoral que guiou os rumos da Pastoral da Diocese de Caxias do Sul. Na apresentação, D. Paulo afirmava a necessidade da unidade eclesial através do plano para assim ser uma igreja missionária e não de mero atendimento, viver a participação, a comunhão e a co-responsabilidade. O objetivo seguia aquele da Igreja no Brasil (CNBB): “Evangelizar com renovado ardor missionário, testemunhando Jesus Cristo, em comunhão fraterna, à luz da evangélica opção preferencial pelos pobres, para formar o Povo de Deus e participar na construção de uma sociedade justa e solidária, a serviço da vida e da esperança nas diferentes culturas, a caminho do Reino definitivo”. As prioridades diocesanas tinham presentes esses pontos:

  • A organização de comunidades participativas e solidárias,
  • Compromisso evangélico com o mundo do trabalho,
  • formação integral e permanente do Povo de Deus.

Este plano tinha como programas de ação: novo jeito de ser Igreja, relação Igreja e sociedade, formar o povo de Deus.

     O plano de pastoral foi acompanhado pelos Conselhos Diocesanos e Conselhos nas regiões pastorais dando uma visão de conjunto66.

     A partir de 1997 não se falava mais de ação pastoral, mas de ação evangelizadora, uma vez que toda a ação pastoral visa a evangelização. Se isso vinha da CNBB, a diocese procurou encarnar da mesma forma tal mudança. Por isso em seu plano de ação de 1997-2000 falava-se de ação evangelizadora. O plano tinha presente o objetivo geral da Igreja no Brasil: “Jesus Cristo ontem, hoje e sempre. Em preparação ao seu jubileu do ano 2000, na força do Espirito Santo que o Pai nos enviou, sob a proteção da Mãe de Deus e nossa, queremos evangelizar com renovado ardor missionário, testemunhando Jesus Cristo em comunhão fraterna, à luz da evangélica opção preferencial pelos pobres, para formar o Povo de Deus e participar da construção de uma sociedade justa e solidária, a serviço da vida e da esperança, nas diferentes culturas, a caminho do Reino definitivo”. O objetivo da Diocese foi: “Dinamizar a ação evangelizadora da Diocese para sermos uma Igreja que evangeliza, promove a vida, a esperança e a solidariedade, e forma o povo de Deus”. A Diocese assumiu como prioridades as mesmas dos anos 1994-1997;

  • Organização de comunidades participativas e solidárias;
  • Compromisso evangélico com o mundo do trabalho;
  • Formação integral e permanente do Povo de Deus;

Essas prioridades eram acompanhadas por quatro novos programas de ação:

  • Ser testemunho de comunhão eclesial como novo jeito de ser Igreja;
  • Ser um serviço, na relação Igreja e sociedade;
  • Promover o diálogo ecumênico e inter-religioso;
  • Ser anúncio do evangelho com ardor missionário67.

     A caminhada pastoral precisou a formulação do Tríduo preparatório do grande Jubileu(1997 – Jesus Cristo e o Batismo; 1998 – O Espírito Santo e a Crisma; 1999 – Deus Pai e Reconciliação).

      O Conselho Diocesano de Pastoral, reunido em Julho de 1999, elegeu como prioridade o ano jubilar, a celebração da Santíssima Trindade, priorizando algumas atividades e celebrações, oportunizando eventos-marcos durante o ano Jubilar do Ano 2000 como:

  • O Natal;
  • Duas mil ações em favor da vida e a CF;
  • Romaria a Caravággio;
  • Santíssima Trindade e Conselho Comunitário;
  • Festa do Corpo e Sangue de Cristo.

     Houve no ano jubilar a visita pastoral do bispo e da coordenação diocesana em todas as paróquias da Diocese, reunindo os conselhos das comunidades. Assim encaminhou-se a Assembléia Diocesana, ocorrida em Julho de 2001 com o tema: “Espirito Santo e nós”. Esta assembléia definiu o objetivo da Ação evangelizadora (2002-2004): “Ser Igreja diocesana, na perspectiva de Jesus Cristo, organizando as comunidades na comunhão, na participação e na solidariedade para ser presença profética e transformadora na sociedade”. As prioridades formuladas nessa assembléia foram:

  • Organização das comunidades eclesiais buscando a sua identidade e missão;
  • Formação para a missionariedade e evangelização a partir da realidade, da Palavra de Deus e seu projeto;
  • Presença cristã e transformadora da sociedade(serviço à vida no mundo dos excluídos);
  • Valorização, organização e formação da juventude68 .

     O Plano de Ação evangelizadora(2004-2007) foi elaborado pelas assembléias comunitárias, paroquiais e regionais, sendo aprovado na Assembléia Diocesana de Pastoral nos dias 13 e 14 de março de 2004. Este plano assume o objetivo da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil: “Evangelizar proclamando a Boa Nova de Jesus Cristo, caminho para a santidade, por meio do serviço, diálogo, anúncio e testemunho de comunhão, à luz da evangélica opção pelos pobres, promovendo a dignidade da pessoa, renovando a comunidade, formando o povo de Deus e participando da construção de uma sociedade justa e solidária a caminho do Reino definitivo”.

     Os âmbitos da ação evangelizadora se constituem em:

  1. Promover a dignidade da Pessoa. Projetos: acolhida e valorização da pessoa humana, espiritualidade que una fé e vida, experiência de Deus e solidariedade, formação cristã rumo à maturidade de Cristo(cf. Ef 4,13), dimensão vocacional da pessoa.
  2. Renovar a comunidade eclesial. Projetos: criar e fortalecer comunidades eclesiais e ministeriais, rede de comunidades, rede de comunicação, responsabilidade presbiteral na concretização do plano de pastoral.
  3. Construir uma sociedade solidária. Projetos: nenhuma comunidade sem serviço da caridade organizado e integrado, presença pública da Igreja, revitalização das pastorais e forças sociais. Compromisso comum: Romaria do/a trabalhador/a 200569.

     Esse plano tem presente também o Projeto Nacional de Evangelização 2004-2007: “Queremos ver Jesus, caminho, verdade e vida”. Ele busca dar respostas aos novos desafios para a evangelização como a globalização, urbanização e destradicionalizaçao, concretizando na Diocese os três âmbitos de ação: promover a dignidade da pessoa, renovar a comunidade eclesial e construir uma sociedade solidária. Em vista do âmbito da pessoa, houve encontros de formação, no que se refere a valorização da pastoral da acolhida, em relação à sociedade, a escola de formação: fé, política e trabalho, escola que tem a ajuda dos professores da Unisinos. No âmbito da comunidade houve em 2006, os assim chamados “encontrões” por Região pastoral ou por áreas em Caxias do Sul com a presença do bispo e da coordenação diocesana de pastoral. A participação das pessoas, lideranças das comunidades em todas as regiões foi muito boa, excelente. Foi aprofundado o subsídio feito pela Coordenação Diocesana de Pastoral: “A melhor maneira de evangelizar é viver em comunidade”. Os encontrões refletiram a necessidade de viver em comunidade que tem como colunas: A perseverança em ouvir o ensinamento dos apóstolos, a comunhão, a fração do pão e nas orações, a solidariedade70. O subsídio também possibilitou a realização das assembléias paroquiais. No último Conselho Diocesano de Pastoral(02/12/2006) foi feita uma avaliação das assembléias paroquiais, onde todos acharam o subsídio válido; mais de metade das paróquias da Diocese realizaram as suas assembléias.

     A diocese fez uma caminhada pastoral e evangelizadora junto a seu povo confiado por Deus. Procurou anunciar Jesus com ardor, vitalidade sendo fiel ao seu projeto de fraternidade e de amor. Um destaque importante é a coordenação diocesana de pastoral com a preocupação de organizar a pastoral na Diocese em união com os planos de pastoral provenientes da CNBB.

     Fazendo uma análise crítica ao longo de sua história, houve por parte do clero uma assunção dos planos e também do próprio povo de Deus que participou muitas vezes na elaboração dos mesmos e das assembléias paroquiais e diocesanas. Com o plano de emergência em 1964 depois o plano de pastoral de conjunto foi-se formulando uma linha de pastoral na Igreja no Brasil que tivesse como ponto fundamental a evangelização, a pessoa de Jesus Cristo, a opção pelos pobres, o respeito pelas culturas, a construção de uma sociedade justa, solidária e a dimensão escatológica; o reino definitivo. Da mesma forma na Diocese houve um crescendum na vida pastoral pela participação do clero, dos bispos, pelo empenho de leigos e leigas, religiosos e religiosas, a valorização da realidade, da família, da comunidade, a constituição dos conselhos nas comunidades, a participação na sociedade, visando a formação de uma sociedade justa e solidária. 

     5. A caminhada do clero

     O clero da Diocese de Caxias do Sul teve uma participação ativa, ad intra, no sentido eclesial e ad extra, na sociedade. Se antes da fundação da Diocese teve um clero em sua grande maioria, estrangeiro, italiano, sobretudo em nossa região, com a construção e inauguração do seminário em 19.03.1939 houve a preocupação de ter mais um clero local, diocesano, secular.

O clero seguiu as linhas dos últimos concílios: Trento, Vaticano II e das últimas conferencias episcopais latino-americanas: Medellin, Puebla, Santo Domingo. Seguiu a teologia e eclesiologia do Vaticano II, de aceitação e/ou recusa da teologia da libertação. Alguns fatos marcaram o clero dessa diocese como:

     - A participação do povo e do clero na concentração contra o comunismo em Caxias do Sul em 16/09/1945. Dom José Barrea compareceu no comício com uma capa magna, de cor toda vermelha, ainda que tivesse a ameaça de sua eliminação. Os padres João Meneguzzo e Eugênio Giordani foram entre outros vítimas das bombas hidráulicas por terem discursado contra o comunismo71.

     - A participação no Sínodo diocesano de 1959 por ocasião dos 25 anos de fundação da Diocese.

     Com o Vat. II, o clero se defrontou com a nova realidade, onde não tinha mais batina, não mais a missa em língua latina, mas na língua local, uma visão de mundo mais aberta por parte da Igreja. Diversos encontros regionais foram realizados tendo sempre o debate sobre os presbíteros e a pessoa dos mesmos, a criação na diocese de estruturas baseadas na fraternidade, a integração dos religiosos, a pastoral de conjunto, a espiritualidade presbiteral, a importância dos estudos, as linhas fundamentais da teologia da ordem como o sacerdócio de Cristo, o serviço do ministério sacerdotal. Debatiam-se a unidade entre o clero e o bispo e os presbíteros entre si. A Diocese de Caxias sempre manteve presbíteros nesses encontros regionais. Tudo isso levou a uma esperança marcante do clero com a realidade, uma aproximação dos presbíteros com o povo. No entanto, alguns sacerdotes deixaram o ministério no final dos anos 60 até o final dos anos 70, na assim chamada crise ministerial. Essa na realidade variava de diocese a diocese. Para isso muitos alegaram razões diversas como: estruturas superadas da Igreja, superiores e bispos incompreensíveis, mundo em transformação, problemas pessoais72. Este período foi marcado pelo debate de questões referentes às suas vidas, como a inserção na realidade, o valor da comunidade, o relacionamento dos presbíteros com o bispo, as tensões com a formação sacerdotal, o celibato, a adesão ou não à Igreja do Vat. II, o acompanhamento da teologia atual.

     A partir de 1985 até 2006 aconteceram onze ENPs: Encontros Nacionais de Presbíteros, em Itaici – Indaiatuba – SP debatendo-se temas referentes aos presbíteros como: O presbítero na Igreja, povo de Deus, servidora do mundo. Ser padre: novos desafios para uma vocação que permanece. Presbíteros: fraternidade e serviço. Os desafios da evangelização para o presbítero hoje. O presbítero no processo de urbanização. O presbítero: missionário, profeta e pastor no mundo urbano. Presbíteros rumo ao novo milênio. Novo milênio, novo presbítero? Presbítero: pessoa e missão. Missionariedade e profetismo do presbítero, na Igreja e no mundo, à luz do Concílio Vaticano II. A diocese de Caxias do Sul sempre participou nesses encontros nacionais com um bom número, em geral, três presbíteros por ser uma diocese de mais de cem padres diocesanos.

     Após o Concílio Vat. II, em nível diocesano o clero participou na elaboração dos planos diocesanos de pastoral. Na realidade, os sacerdotes se sentiam mais formadores de comunidade. Objetivamente o acento dava-se sobre o aspecto administrativo, sacramental que uma vivência global da Igreja pelo crescimento da fé, esperança e caridade73. Pela falta de uma formação dos sacerdotes a um sentido comunitário e eclesial, os leigos desconheciam os seus direitos dentro da comunidade. O clero centralizava toda a pastoral. No entanto, os leigos descobriam aos poucos a sua missão e seu direito de ter voz e vez ativa na comunidade74.

     No segundo plano diocesano de pastoral de conjunto, em 1969, o acento se desenvolveu pelo valor das pequenas comunidades de base, tendo presente Medellin. Toda a estrutura da Diocese deveria pôr-se a serviço das comunidades de base sendo assim família de Deus, no esforço de construir no cotidiano da existência “o reino da verdade e da graça, da justiça, do amor e da paz”75. Ainda nesse plano colocava-se a necessidade de ter reuniões mensais do Conselho Presbiteral, procurando tratar as questões pastorais, mas sobretudo presbiterais.

     Em 18-20/1976 houve em Garibaldi uma assembléia diocesana de presbíteros com o fim de debater o tema: “A pessoa do presbítero e os problemas que enfrenta no ministério”. Houve uma preparação nos meses de julho e agosto com reuniões de presbíteros nas foranias. É importante o conhecimento das resoluções dessa assembléia que foram aprovadas. Solicitava-se que o Conselho de Presbíteros sendo um órgão de colegialidade, fosse de fato representativo e tivesse poder de decisão. Como segundo ponto frisava-se a importância da formação e acompanhamento dos presbíteros. Colocava-se o item de oportunizar os presbíteros que desejassem fazer um curso de atualização, aperfeiçoamento em teologia, pastoral, pudessem fazê-lo em nome da diocese, e ao mesmo tempo, solicitava-se à Diocese uma programação de cursos de atualização teológico-pastoral para os presbíteros. Como terceiro ponto foi debatida a ação pastoral dos presbíteros. Para isso solicitava-se o estudo, a pesquisa de dados na Diocese em vista do conhecimento do povo que estamos servindo, as suas angústias, valores, aspirações para que os presbíteros exerçam com fecundidade a sua missão de presbíteros e pastores. Como quarto ponto teve-se presente a solidariedade e entre ajuda sacerdotal afirmando-se a necessidade de entre ajuda financeira de paróquias e presbíteros numa dimensão de fraternidade e justiça76.

     Nós tivemos padres pastores que amaram o povo de Deus na Diocese e marcaram-no por onde passaram e também missionários que foram anunciar o evangelho para as terras do Brasil, e estiveram em Coordenações nacionais e alguns que foram no Continente Africano77. Nós tivemos presbíteros que estudaram nas Universidades no Brasil e na Europa e atuam nas Universidades sendo professores, trabalhando na formação sacerdotal e universitária.

     Nós não podemos deixar o fato que alguns padres da Diocese estiveram ligados à Ação Católica em geral incentivada por Pio XI e aquela Especializada surgida na década de 1960. O seu fundador foi o Cardeal Cardjin, o qual percebera que a sociedade industrial havia mudado radicalmente de modo que a religião era considerado ópio do povo e a Igreja não tinha mais acesso ao operariado. A Igreja necessitava ir ao seu encontro. Seguindo o método ver, julgar e agir alguns padres incentivaram a JOC, a JUC, JEC e a JAC. Na década de 1980 com a pastoral orgânica da Juventude outros presbíteros marcaram presença juntos aos jovens pela Pastoral da Juventude, fazendo formação, encontros diocesanos, regionais e nacionais. Nesta mesma década, bispo e clero ficaram sensíveis à luta pela terra, por ocasião dos sem-terra que passaram pelas nossas cidades e na Diocese de Caxias do Sul, no Centro Diocesano de Formação Pastoral.  

     6. A participação dos leigos e leigas

     O Concílio Vaticano II colocou a importância do batismo no qual torna as pessoas filhos e filhas de Deus Uno e Trino sendo também o início da comunidade cristã, católica. Ele realçou o sacerdócio comum e o sacerdócio ministerial do qual ambos bebem da única fonte: o sacerdócio de Jesus Cristo. A Igreja não é clerical ou piramidal com o clero comandando e os leigos na base, obedecendo cegamente. Toda a igreja é serviçal ou ministerial: clérigo ou leigo tem sua função diferente mas de igual valor. Todos estão em circulo ao redor de Jesus, o único Mestre e Senhor.

     O sacerdócio comum foi resgatado pelo Concílio, possibilitando a missão do leigo e da leiga dentro e fora da Igreja. Desde o primeiro plano da Diocese colocava-se a vida laical como uma força que ganha um corpo sempre maior. Houve um crescendum na visão dos leigos e das leigas na participação da vida comunitária. O objetivo do programa de número 1, que falava da unidade visível do primeiro plano diocesano de pastoral afirmava: “levar o povo de Deus a uma maior comunhão de vida em Cristo, através da realização sempre mais plena de sua unidade visível”78. Cada membro da comunidade deve descobrir as suas funções, animado pelo espírito da caridade e realizando sua vocação. Se na teoria as idéias eram bem claras no entanto a situação na Diocese em relação aos leigos na época era diferente. O plano de pastoral, em 1968, fala dos leigos dizendo que na sua grande maioria ainda desconhece os direitos dentro da comunidade. Os leigos que descobriram sua missão na comunidade, estão ressentidos pelo pouco apoio e compreensão por parte do clero. Um senso de responsabilidade está ocorrendo nos leigos e leigas, mas ainda está na fase da passividade79.

     Já no segundo plano diocesano falava-se bastante da necessidade de formação de agentes de pastoral tanto para a realidade urbana como rural na ação evangelizadora80. Nas Diretrizes da Ação pastoral de 1979/1980, a igreja diocesano de Caxias do Sul procurava assumir as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias sobretudo os pobres e os sofredores como os sentimentos dos discípulos de Cristo(cf. GS 1). Tinha-se presente uma Igreja que unia bispos, padres, irmãos mais velhos e agentes em Jesus Cristo no serviço a todas as pessoas e comunidades81.

     Nestes últimos planos de ação pastoral e evangelizadora deu-se um maior realce aos leigos pela liturgia, catequese, política, coordenação das comunidades. Tem-se a formação cristã que testemunha a própria fé em Jesus Cristo. Para isso são oferecidos em algumas paróquias, cursos de teologia para leigos, formação de agentes de pastoral, escolas de formação para jovens, Campanha da Fraternidade, escola de formação fé, política e trabalho em vista da evangelização dos leigos e leigas que trabalham em nossas paróquias e diocese. 

     7. Desafios concernentes ao presente e ao futuro da Diocese

     O olhar teológico na Diocese de Caxias do Sul aponta aspectos desafiadores para o presente e ao futuro em vista da eficácia da ação evangelizadora. Destacam-se alguns pontos:

  1. A assunção da realidade como ponto de partida de todo o pensamento teológico e da ação evangelizadora;
  2. A opção pelos pobres pelo fato de eles serem os protagonistas do Reino Deus;
  3. A continuação do projeto de formação de leigos e leigas em todos os níveis eclesiais;
  4. A evangelização da juventude;
  5. Uma atenção maior para a periferia das cidades e dos novos loteamentos para adquirir terrenos e encaminhamentos de novas comunidades e Igrejas;
  6. Toda a formação seja em vista da pastoral de nosso povo;
  7. Um amor a Jesus Cristo e ao seu Reino por parte de todos.

     Conclusão

     Os sinais de Deus na história da Diocese de Caxias do Sul propiciaram alegrias, esperanças para que esta Igreja Particular correspondesse à vontade de Deus neste tempo propício. Diversos fatos demonstraram como a ação de Deus agiu através de pessoas como leigos e leigas, presbíteros e bispos, pessoas santas mas também permeadas por limitações, pecados. A Diocese caminhou nestes mais de 70 anos amparada pela mão de Deus Pai, pela presença de seu Filho e pela iluminação do Espírito Santo e abençoada pela Virgem Maria. Houve uma teologia histórica na qual a luz de Deus iluminou a instituição diocesana, as paróquias e comunidades para que se levasse em frente todos os trabalhos incumbidos com fé e amor. Pede-se perdão pelas faltas cometidas e omissões realizadas e louvemos a Deus pelo bem realizado de modo que o Reino de Deus floresça na Diocese de Caxias do Sul.

     Bibliografia Geral

  • Brandalise, E. A. Paróquia Santa Teresa, cem anos de fé e história: 1884-1984. Caxias do Sul: Editora da Universidade de Caxias do Sul, 1985.

     Das Escolas paroquiais à universidade. A Igreja em Caxias do Sul. Porto Alegre: Posenato Arte & Cultura, 1988, p. 122-123.

  • Dom Benedito:

     Cartas Pastorais de Dom Benedito Zorzi, Biblioteca do Bispado de Caxias do Sul, RS.

     “Carta Pastoral de Dom Benedito Zorzi, Bispo de Caxias do Sul. Peregrinação Mariana”. In: Cartas Pastorais de Dom Benedito Zorzi, Biblioteca do Bispado de Caxias do Sul, RS.

  • “Carta Pastoral de Dom Benedito Zorzi, Bispo de Caxias do Sul. XXXVI Congresso Eucarístico Internacional”. In: Cartas Pastorais de Dom Benedito Zorzi, Biblioteca do Bispado de Caxias do Sul, RS.

     Dom Benedito Zorzi, Santuário Diocesano de Caravággio – Farroupilha – Diocese de Caxias do Sul. In: Teocomunicação, ano 17, n° 17. Porto Alegre: ITCR, PUCRS, 1987/2.

     Documentos dos presbíteros, CNBB, Secretariado Nacional do Ministério Hierárquico. Rio Janeiro: tipografia Baptista de Souza, 1969.

- Hastenteufel, Z. “Trento – O grande Concílio, na reforma do clero”. Teocomunicação. n. 77, ano 17, Porto Alegre, EDIPUCRS, 1987/3.

- D. José Barea. A vida espiritual nas colônias italianas do Estado do Rio Grande do Sul: 1925. (Tradução e Introdução de Mário Gardelin e Rovílio Costa). Porto Alegre: Edições EST, 1995..

---História da Igreja de Nossa Senhora do Rosário. Introdução e nota de Moacyr Flores. Porto Alegre: Est Edições, 2004.

---Carta Pastoral de D. José Barea, primeiro bispo diocesano de Caxias. Saudando a sua Diocese. Porto Alegre: Centro da Boa Imprensa, 19-01-1936.

Carta Pastoral de Dom José Barea, bispo de Caxias. Sobre o Comunismo e o dever dos católicos. Porto Alegre: Tipografia do Centro, 29-07-1945.

---Ofertas para a construção do Seminário Diocesano: Livraria do Bispado de Caxias do Sul.

---Correio Rio-Grandense. Sociedade L. S. Boaventura, Garibaldi, Quarta-feira 28 de novembro de 1951.

---“Carta Pastoral de Dom Benedito Zorzi, Está na hora”... 19/04/1970. In: Cartas Pastorais de Dom Benedito Zorzi, Biblioteca do Bispado de Caxias do Sul, RS.

---Primeiro Sínodo Diocesano de Caxias, convocado, presidido e promulgado por S. Excia. Revma. O Sr. Dom Benedito Zorzi. Caxias do Sul: Editora São Miguel, 1959.

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---Carta Pastoral de Dom Benedito Zorzi, bispo emérito de Caxias do Sul. Ação pastoral ontem e hoje, de 30/11/1983. Biblioteca do Bispado de Caxias do Sul, RS.

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---Plano de Ação Pastoral da Diocese de Caxias do Sul, 1994-1997.

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---Diocese de Caxias do Sul, Proposta para a assembléia paroquial. A melhor maneira de evangelizar é viver em comunidade, 2006.

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